18h do primeiro dia do TDC Floripa. Eu tinha acabado de encerrar o expediente remoto (sim, trabalhei boa parte do maior evento de tecnologia da América Latina puxando tarefa no notebook, como qualquer CLT em home office fora de casa). Desci pra pegar o encerramento no Stadium só pra reencontrar uns amigos.

A Yara Mascarenhas, CEO e fundadora do TDC, está no palco principal. Ela começa a contar uma história pras mais de 200 pessoas ali: “quero compartilhar com vocês a história de alguém que me inspirou muito. Ele saiu do zero e em apenas 4 meses virou top 13 contribuidores do mundo no quarkus-langchain4j. É por isso que eu falo que é tão importante ter um foco, um objetivo. Um mentorado do Luiz Real que tá fazendo um trabalho incrível.”

Ao meu lado, o Luiz Real aponta pra baixo. “Ele tá bem aqui.”

Eu não tinha ensaiado nada. Ninguém tinha me avisado.

Naquele mesmo dia, na hora do almoço, eu tinha sentado por acaso na mesma mesa que ela e contado essa história. Mas ali não teve convite nenhum, nenhuma promessa, nem sinal de que aquilo fosse a lugar algum. O almoço acabou, cada um foi pro seu lado e eu voltei pro notebook pra terminar o expediente. Até aquele segundo no Stadium, eu não fazia a menor ideia de que a conversa tinha ficado com ela.

Subi sem hesitar.


Essa é a primeira edição do De Frente com Claude, uma série de entrevistas inspirada no clássico De Frente com Gabi, o programa da Marília Gabriela que passou décadas sentando pessoas cara a cara e fazendo as perguntas que ninguém mais fazia, sem roteiro de assessoria, sem resposta ensaiada.

Pra esse experimento específico, chamei o Claude Sonnet 5 pra fazer as perguntas no meu lugar. A ideia era simples: perguntas diretas sobre o que aconteceu naquele dia, sobre o que ficou de fora do post do LinkedIn, sobre o receio de não estar preparado e sobre o que significa ser reconhecido publicamente por um trabalho que, na maior parte do tempo, ninguém vê e ninguém paga.

O que segue é essa conversa.


Claude: Vamos do começo. Como você foi parar no TDC Floripa esse ano?

Eu nem me submeti diretamente. Meu amigo Matheus Cruz inscreveu a gente pra falar sobre open source no Community Lounge. O TDC aceitou a proposta, mas nos encaixou numa roda de conversa sobre um tema diferente do que a gente tinha pitchado: “Carreira Internacional para Devs”. Aí o Cruz não pôde comparecer, e eu fiquei sozinho num tema que não era exatamente aquele pro qual eu tinha me preparado.

Pra ser sincero, eu nem achava que a gente seria aprovado. E quando a organização entrou em contato confirmando, eu enrolei uma semana inteira pra responder e confirmar minha participação. Seria minha primeira vez palestrando presencialmente num evento daquele tamanho.

Depois de já estar com passagem e hospedagem certas, o Luiz Real ainda me convidou pra dar uma mentoria no hub de mentorias do evento. Aceitei, e foi assim que acabei com duas participações no TDC.


Claude: Uma semana enrolando é bastante tempo. O que te fez dizer “vou mesmo assim, sozinho”?

Pra ser sincero, eu não sei se foi coragem. Eu não tinha me preparado financeiramente pra viagem, e isso pesou muito na decisão, mais até do que o tema ter mudado ou eu ir sozinho. O Luiz Real me incentivou bastante, e chegou a se oferecer pra dividir o Airbnb comigo, só pra me apoiar. Isso ajudou demais.

Ainda faltava resolver um monte de coisas: pedir autorização pra empresa, alinhar com o time. Depois que consegui tudo isso, mesmo com dúvida, decidi dar um salto de fé. Às vezes a gente só precisa acreditar em Deus e arriscar um passo a mais, esperando que algo de bom venha daquilo.


Claude: E o almoço com a Yara, como ele surgiu?

Precisei trabalhar remotamente todos os dias do evento, exceto nos momentos em que estava mentorando ou palestrando. No primeiro dia, perto da hora do almoço, eu estava conversando com o Luiz Real e o mentor dele, o Bruno Souza, que é uma referência histórica do Java no Brasil. Eles me convidaram pra almoçar junto, e de repente a Yara Mascarenhas, CEO e fundadora do próprio TDC, apareceu e foi almoçar com a gente também.

Quando fui me sentar, o Bruno ficou na dúvida se sentava do lado dela ou se me deixava sentar. Eu insisti pra ele sentar, mas ele insistiu pelo oposto, e eu aceitei educadamente.

Só aí eu já estava achando um máximo, momento fã tiete puro. O TDC tem sido muito importante pra minha carreira. Minha primeira participação foi em 2022, e um mar de possibilidades se abriu pra mim. Foi lá que descobri todo o poder das comunidades, de participar de eventos de tecnologia, e conheci muitas pessoas que foram e são relevantes na minha carreira. E agora eu estava sentado do lado de quem fundou aquele evento inteiro.


Claude: Como a conversa chegou no seu trabalho?

Conversa vai, conversa vem, surgiu na mesa que eu sou mentorado do Luiz Real, que por sua vez é mentorado do Bruno Souza. A gente estava falando bastante sobre carreira, e a Yara perguntou onde eu trabalhava, quem eu era.

Um ponto importante foi eu ter comentado sobre a minha primeira mentoria com o Luiz, em março, e sobre a pergunta de ouro que ele me fez: “o que precisa acontecer pra você dizer que teve os melhores 12 meses da sua vida no próximo ano?”

Foi essa pergunta que me fez cair a ficha de que eu queria trabalhar com open source e virar maintainer de alguma extensão importante do Quarkus. Foi ali que nasceu tudo que eu chamo hoje de Missão Committer.


Claude: Repetir essa pergunta na frente do Bruno Souza e da fundadora do TDC não te deu um frio na barriga?

Aqui vai uma correção de expectativa: não foi um momento raro de vulnerabilidade, foi o contrário. Eu repito essa pergunta com frequência, pra mim mesmo e pra outras pessoas. Acho ela bastante poderosa, e como estou certo do meu objetivo, é sempre natural dizê-la em voz alta.

Aquele almoço nem foi a primeira vez que contei isso pra alguém. Antes da Yara, eu já tinha contado pra cerca de cem pessoas, num encontro presencial do SouJava JUG.


Claude: E o número? O que você contou que a deixou impressionada?

Aproveitei o embalo e disse que era o contribuidor brasileiro número 1 do quarkus-langchain4j, que é a extensão que integra IA e LLMs em aplicações Java com Quarkus, e que eu era o top 13 do mundo naquele projeto. Não lembro se ela perguntou diretamente ou se fui eu que soltei, mas veio à tona que eu tinha alcançado isso em apenas 4 meses.

Ela também sabia o contexto completo: eu já contribuía com open source há uns 2 anos, mas de forma dispersa, PR aqui e ali, sem direção nenhuma. Naquele projeto específico eu comecei do zero mesmo. A pergunta de ouro foi o que trocou dispersão por foco.

Ela ficou super impressionada, me parabenizou bastante, e depois trouxe à tona na conversa da mesa como era importante ter foco e um objetivo alto na carreira, me usando de exemplo.

A conversa também passou pelo meu projeto pessoal, o Qlawkus, e trocamos amenidades e piadas sobre o Claude, que ela curte bastante. Contei também a história do Matheus Cruz, o mesmo amigo que tinha me inscrito no evento: ele mirou o top 100 contribuidores do Quarkus Core em um ano, alcançou, e comemorou comprando pizza com a mulher dele. Foi ele que me inspirou a mirar o top 20 nos meus 12 meses. Mas quando conversei com ele sobre isso, ele sugeriu ir mais longe, tentar o top 10. Eu, com medo, aceitei. A Yara reforçou ali na mesa que eu ia chegar lá.


Claude: Só que “top 13” não era bem verdade. Como você descobriu?

Tem uma história por trás desse número. “13” foi meu sub-objetivo por muito tempo, porque era a posição que me separava de ser o brasileiro com mais contribuições no quarkus-langchain4j. Quem ocupava aquele lugar era o Gastaldi, alguém que eu admiro muito. Persegui esse número por bastante tempo, e acho que acabei me apegando a ele.

O engraçado é que, um dia depois de subir no palco, fiquei com a pulga atrás da orelha sobre se ainda era o 13º. No sábado, com o evento já encerrado e um tempo livre sobrando, fui conferir de novo, e me dei conta de que não era mais o 13º. Já era o 12º.

Ou seja: eu tinha ultrapassado meu próprio sub-objetivo sem nem perceber, enquanto ainda estava distraído comemorando outra coisa.


Claude: Antes do almoço acabar, você resolveu contar mais uma coisa pra ela. Por que se expor assim com alguém que você tinha acabado de conhecer?

Eu sou meio bocão, mas acredito de verdade que quanto mais pessoas sabem dos seus objetivos, mais pressão e motivação interna você ganha pra alcançá-los. Então, antes do almoço acabar, eu disse pra ela: “eu quero ser pago pra trabalhar com open source. Eu te contei só a segunda meta. Essa é a principal.”

Ela é uma pessoa muito relevante pra comunidade, e eu achei que seria legal ter alguém assim sabendo do meu objetivo. Era uma oportunidade única, eu não sabia quando teria a chance de falar com ela de novo.

Além disso, sou adepto mesmo da filosofia “build in public”. Essa pressão é uma boa pressão, do mesmo tipo que forma diamantes, penso eu. Prefiro ter vergonha de fracassar publicamente e usar isso como impulso pra concluir algo, do que ter medo de contar algo que talvez não se realize só pra me proteger. Entende?


Claude: E aí? Ela te convidou pro palco ali mesmo?

Não. Não houve convite nenhum, nenhuma promessa, nem um “depois eu te procuro”.

A Yara foi extremamente gentil e atenciosa o almoço inteiro. Perguntou onde eu trabalhava, o que eu fazia exatamente, se interessou de verdade pelo que a gente estava conversando. Em algum momento ela conferiu meu nome completo no crachá e anotou no celular. Se foi pra ela mesma ou pra mandar pra alguém, isso eu não sei dizer.

Pra mim, ali, era uma conversa boa numa mesa de almoço, e só. O almoço acabou, cada um foi pro seu lugar, e eu fui trabalhar, porque tinha tarefas importantes pela tarde. Nem pude participar muito do evento naquele dia.


Claude: Então você chega no Stadium às 18h sem saber de nada, e a Yara começa a contar a sua história do palco. O que passou na sua cabeça quando o Luiz apontou pra você?

Não hesitei um instante. Eu sabia que aquela era a hora de reforçar minha filosofia de build in public e contar pra aquela plateia o mesmo que eu tinha dito pra ela no almoço.

Foi um momento fantástico. Eu não esperava que isso acontecesse, não esperava esse reconhecimento. Tinha umas 200 pessoas ou mais ali presencialmente, além do pessoal do evento. As pessoas bateram palmas, e depois disso várias pessoas vieram me parabenizar individualmente.


Claude: Você falou em “reconhecimento”. O que isso significa na prática pra quem contribui de graça?

Eu me senti profundamente reconhecido. Eu passo muitas horas do meu tempo livre escrevendo, lendo e revisando código, abrindo issues, participando de discussões. Não existe salário pra isso. Jamais imaginei que poderia ser reconhecido publicamente assim, no maior evento de tecnologia da América Latina.

No trabalho, às vezes eu chego a ouvir piadas por “trabalhar de graça”. Algumas pessoas até sugerem que eu estou à disposição pra fazer o trabalho delas. Normalmente eu ignoro idiotices assim, mas é muito bom também ser reconhecido positivamente por pessoas que eu admiro tanto.


Claude: Você diz que ignora essas piadas, mas trouxe elas pra essa conversa sem eu perguntar. Elas incomodam mais do que você admite?

Não, elas realmente não me incomodam. E vou te dar a prova: se eu desse ouvido a esse tipo de piada, eu jamais teria chegado naquele palco do TDC.

O que eu trouxe aqui não é mágoa, é contraste. Existem pessoas que eu quero ter por perto, e existem pessoas que eu prefiro ignorar. A diferença entre escutar uma e escutar a outra é literalmente a diferença entre estar no palco e não estar.


Claude: Depois de tudo isso, o que muda pra você?

Nada muda. Tem uma entrevista sensacional do Kobe Bryant sobre isso, de 2009, depois do jogo 2 das Finais contra o Orlando Magic: perguntaram por que ele não parecia satisfeito com a vantagem, e ele respondeu “job’s not finished”.

É basicamente isso. Eu ainda não alcancei meus objetivos. Nada muda. Sigo trabalhando em silêncio. O que as pessoas pensam de mim, negativa ou positivamente, não deveria influenciar a qualidade do meu trabalho ou o que eu faço pra chegar lá.


Claude: “Trabalhar em silêncio” é uma frase interessante vindo de quem postou no LinkedIn, está escrevendo esse artigo e vai divulgar um e-book no final dele. Nada muda mesmo?

O silêncio a que me refiro é sobre a régua, não sobre a boca. Contar faz parte do trabalho pra mim, é a própria filosofia de build in public que eu defendo aqui desde o começo dessa conversa.

O que não muda é que o objetivo continua lá na frente e eu não cheguei nele. Aplauso não me deixa mais perto do top 10, nem de ser pago pra trabalhar com open source. No dia seguinte ao palco, o que eu fiz foi revisar alguns PRs e projetos e ler discussões no Zulip do Quarkus.


Claude: No dia seguinte veio a tal roda de conversa sobre carreira internacional, aquela que você quase não confirmou. Como foi?

Foi ótimo. Falei sobre minha experiência na BMW Group TechWorks Brasil, e também sobre open source e como ele pode impulsionar sua carreira no mercado internacional. Meu argumento é simples: se acostumar com comunicação assíncrona, fusos diferentes e times globais é o que te prepara pra trabalhar lá fora. Contribuir com open source te dá exatamente essa experiência.

Outro ponto importante que reforcei é que você não precisa de um inglês perfeito. Um B2 é suficiente na maioria dos casos, e às vezes as empresas topam até um B1.

No final, umas cinco pessoas me abordaram pra falar sobre open source e como começar. Contei tudo que sabia, mencionei o que tinha acontecido no dia anterior com a Yara, e acho que isso as incentivou ainda mais. Também ofereci meu e-book pra quem quisesse dar o primeiro passo.


Claude: Sejamos francos: se a Yara não tivesse sentado naquela mesa por acaso, nada disso teria acontecido. Você estaria escrevendo esse artigo?

Sorte é estar preparado quando a oportunidade aparece. E eu estava preparado.

Teve coincidência, claro. Foi coincidência ela aparecer naquele almoço, foi coincidência o Bruno insistir pra eu sentar do lado dela. Mas o que a coincidência encontrou ali foram quatro meses de PR mergeado. Se eu não tivesse o trabalho feito, a Yara teria almoçado do lado de um cara simpático e acabou. Não existiria história nenhuma pra ela contar no palco.


Claude: Que tipo de aprendizado você tira de toda essa situação?

Tem um que eu falo sempre, em eventos e palestras. O Linus Torvalds tem aquela frase clássica, “talk is cheap, show me the code”, e é uma frase maravilhosa. Mas se você não falar do seu código pras pessoas, talvez elas jamais saibam sobre você.

Se eu tivesse bancado o introspectivo que só fica codando durante o evento inteiro, e tivesse ficado sozinho no almoço em vez de sentar naquela mesa, nada disso teria acontecido. O código é a base, sem ele não existe história nenhuma pra contar. Mas contar o que você faz é o que faz alguém saber que você existe.


Claude: Última. O que você diria pro Matheus que passou uma semana enrolando pra confirmar presença, sem saber se resolveria a parte financeira?

Eu diria pra continuar o trabalho e dar o salto de fé. Keep pushing forward. Não sei se existe uma expressão equivalente exata em português, mas é isso: coisas boas podem vir diante das adversidades e dos riscos que a gente decide tomar.


Foi assim que fui parar, sem aviso nenhum, no palco principal do maior evento de tecnologia da América Latina, por causa de um trabalho que na maioria dos dias ninguém vê e ninguém paga.

Se você quer começar a construir a sua própria versão dessa história, não precisa esperar quatro meses nem um convite de palco. Escrevi o Guia Prático de Open Source, um e-book pra ler numa tarde e começar a aplicar na mesma semana, sem experiência prévia e sem depender de linguagem ou framework específico.

O trabalho ainda não está terminado. Mas o seu primeiro passo pode começar hoje.