Segunda de manhã, café ainda quente, abri a aba de contribuidores do quarkus-langchain4j sem querer nada além de matar aquela curiosidade de sempre. Rolei a lista até achar meu usuário. Não precisei rolar muito: 10ª posição, 38 contribuições, na frente de nomes que eu só conhecia de admirar de longe.
Dessa vez não teve palco. Ninguém apontou pra mim numa plateia de 200 pessoas. Fui só eu, sozinho, de manhã, descobrindo na tela do notebook que tinha chegado onde queria.
Cinco meses atrás esse número nem existia. Vale contar como cheguei até aqui.
Do zero
Em 28/03/2026 tive uma mentoria com o Luiz Real que me colocou nesse caminho: virar committer de uma extensão relevante do Quarkus em até 12 meses. Escolhi o quarkus-langchain4j e, em 15/04/2026, abri meu primeiro PR de verdade no projeto. Zero contribuições anteriores ali, zero garantia de que aquele PR sequer seria revisado.
Foi por essa época que o Matheus Cruz, que também mira alto em Open Source, me desafiou: em vez do top 20 que eu tinha em mente, por que não o top 10? Aceitei com medo. Mas aceitei.
Dali em diante virou rotina: abrir issue, entender o código, mandar PR, receber review, corrigir, repetir. Sem glamour nenhum na maior parte das semanas.
O checkpoint que eu nem sabia que tinha passado
Em julho, no palco do TDC Floripa, fui apresentado como top 13 por alguém que nem sabia que eu estava na plateia. Aquele número não era aleatório pra mim: 13 era a posição do Gastaldi, alguém que eu admiro muito, e alcançá-la significava virar o brasileiro com mais contribuições pro quarkus-langchain4j. Persegui esse número por meses.
Subi sem hesitar, contei a história pra mais de 200 pessoas, recebi os parabéns. No dia seguinte, com tempo livre e a pulga atrás da orelha, fui conferir de novo: já era top 12. Tinha passado da minha própria meta sem perceber, ocupado demais comemorando outra coisa.
O que foi acontecendo no caminho
Enquanto os PRs se acumulavam, o resto foi vindo junto, meio sem eu pedir. Comecei a ser convidado pra palestrar: Quarkus Club, SouJava, Dev Converge, TDC Floripa. Gente que eu nem conhecia começou a me procurar pra mentoria, querendo saber como dar o primeiro passo no Open Source, e hoje já perdi a conta de quantas pessoas incentivei a mandar o próprio primeiro PR. Em algum momento desse caminho virei Oracle ACE Associate, um reconhecimento que eu nem cogitava quando abri aquele primeiro PR torcendo pra alguém sequer revisar.
Nada disso era o plano original. O plano era o ranking. Mas contribuir de verdade, de forma consistente, parece puxar muito mais coisa atrás do que só o número.
Do 12 pro 10
E foi assim, sem festa marcada, que o 12 virou 10. Não é só um número no GitHub: é a prova de que trocar contribuição dispersa por foco funciona de verdade. A meta original era 12 meses. Cheguei em 5.
E virei maintainer de triagem
Teve mais uma coisa que aconteceu nesse meio tempo, e ela pesa até mais que o número: fui convidado a entrar como maintainer de triagem do quarkus-langchain4j. Não é o commit access pleno que eu sonhava lá na mentoria com o Luiz Real, mas é o primeiro degrau oficial dentro do projeto: hoje consigo triar issues, gerenciar labels e ajudar a organizar o fluxo de PRs de outras pessoas, com o peso de quem o time confia.
Se reparar bem, isso é literalmente o objetivo original da missão virando realidade, não só um número subindo de posição. A meta nunca foi só o ranking, era virar alguém em quem o projeto confia pra ajudar a mantê-lo. Isso começou a acontecer.
Obrigado
Antes de qualquer coisa: obrigado ao Luiz Real, que começou tudo isso com duas perguntas difíceis numa mentoria de fim de semana, e ao Matheus Cruz, que me desafiou a mirar mais alto do que eu miraria sozinho.
E um agradecimento à parte pro Georgios Andrianakis (geoand) e pro Jan Martiska (jmartisk), os mantenedores do quarkus-langchain4j. Foram eles que revisaram a maior parte dos meus PRs, apontaram erro que eu não via sozinho e me ensinaram a pensar no design da extensão, não só em escrever código. Se hoje escrevo Java melhor, boa parte do mérito é deles.
Se eu consegui, você também consegue
Não contei nada disso pra me exibir. Contei pra provar um ponto: 5 meses atrás eu não tinha nenhuma contribuição nesse projeto. Nenhuma. O que eu tinha era foco, um objetivo claro e a disposição de abrir PR atrás de PR, semana após semana, mesmo quando ninguém estava olhando.
Se você lê esse blog há um tempo, sabe que eu bato nessa tecla: Open Source é o maior nivelador de oportunidades que existe no nosso mercado. Você não precisa de convite, não precisa de currículo, não precisa de ninguém te escolher. Você abre o repositório e começa.
Se você não sabe por onde começar, escrevi um guia definitivo pra isso. E se acha que só quem escreve código contribui, tem esse outro artigo mostrando que issue, discussão, artigo e divulgação também contam, e contam muito. Tem também o meu Guia Prático de Open Source, um e-book curto pra sair do zero ainda essa semana.
Escolha um projeto que você usa de verdade, ache uma issue pequena, e manda o primeiro PR. Eu conto no que der.
O trabalho não terminou
O top 10 e o cargo de maintainer de triagem eram sub-objetivos. O sonho de verdade continua sendo ser pago pra trabalhar com Open Source, e esse eu ainda não alcancei.
Amanhã eu volto pro Zulip do Quarkus e pras issues abertas. Mas hoje, só hoje, eu comemoro.
Pra quem quer ver os PRs
O ranking é só a casca. O que sustenta ele são cerca de 33 PRs mergeados desde abril. Alguns que eu separaria como os mais importantes:
- Extensão nova pro Oracle Database (#2494): levei o Oracle Database do zero pro catálogo de embedding stores suportados pelo projeto.
@OnThinking(#2460): uma anotação nova pra capturar o raciocínio (“thinking”) de modelos que expõem esse passo, direto no AI Service, sem gambiarra.- Named stores em 7 integrações de vector database (pgvector, Redis, Neo4j, Chroma, Milvus, Qdrant e Weaviate): uma sequência de PRs levando suporte a múltiplas instâncias nomeadas de embedding store pra praticamente todo provider relevante do ecossistema.
- Rastreamento de prompt cache tokens (#2585): métricas e estimativa de custo passaram a considerar tokens de cache, importante pra quem roda em produção de olho na fatura do provedor de IA.
- Validações de build-time pra fluxos agentic (#2664): erro de configuração em agente agora é pego em tempo de build, antes de virar bug silencioso em produção.
- Página de Guardrails e monitoramento de agentes na Dev UI (#2699 e #2674): visibilidade de guardrails e da topologia/execuções de agentes direto na interface de desenvolvimento, sem precisar caçar log.
Nenhum desses PRs sozinho me colocaria no top 10. O que colocou foi a soma: aparecer toda semana, entregar algo de verdade, e repetir isso por 5 meses seguidos.
